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Pânico!



Quando eu abri os olhos demorei pouco tempo para descobrir que fui acordada por um barulho não muito distante, logo que tomei consciência do que ele podia significar eu entrei em pânico e fiquei congelada na cama apenas tentando descobrir o que estava acontecendo e onde estava acontecendo. Pisquei várias vezes como se isso fosse me levar para outra realidade até que consegui manter os olhos abertos e os ouvidos em estado de alerta.
Sim, aquele barulho, eu conhecia aquele barulho. Mais que em pânico eu fiquei totalmente horrorizada! Meus cabelos arrepiaram todos, do corpo inteiro, e eu queria fugir pra bem longe dali. Como eu podia prever que em breve a minha cama, meu quarto inteiro seria parte involuntária de um pesadelo?
Sim, porque ela ainda não sabe, mas ela vai acordar e vai ver que tudo é um pesadelo horrível, traumatizante, pro resto da vida ela não vai esquecer as vozes, os barulhos ensurdecedores, o cheiro de pó e umidade que ao mesmo tempo é seco e cortante.
 A minha vizinha está em obras! Ou a casa dela, de todo jeito todos serão reformados pra sempre, ela, a casa, os filhos, os vizinhos.
No primeiro dia eu acordei com barulho de martelo ou britadeira, pra mim o barulho é igual, no que me pareceu ser ainda noite alta, mas eram 7h30. Nem posso reclamar, ficamos em obra por oito meses em casa e é exatamente daí que vem o meu trauma.
 Minha vizinha não sabe, ela acha que “eles” são ótimos, são profissionais, são amigos, são trabalhadores, mas depois a bruma que os esconde vai se dissolver e ela vai enxergar com clareza os monstros que “eles” são.
Não me diga para não generalizar, não tem como, eu não consigo, é inevitável esperar de todos eles o mesmo comportamento, pelo menos pra mim. E mesmo que os dela sejam diferentes eu desejo que não sejam simplesmente pelo fato de que não suportaria saber que só eu fiquei completamente traumatizada depois de uma obra em casa.
Tem como fazer uma CPI para investigá-los, tem como acusá-los de peculato? Peculato é a palavra do momento, chique, charmosa, abrangente. Eu jamais poderia acusá-los com alguma palavra insignificante.
 Deu pra entender? Eu tomei horror a obra, cheiro de cimento, areia, gente falando, rindo, batendo martelo, usando ferramentas para quebrar, destruir, desmanchar e fazer tudo de novo,  muito novo, mesmo que seja difícil apreciar o que ficou novo por ter sido um processo tão doloroso que tirou o brilho da novidade, da realização de um sonho, da vontade de viver com dignidade. Arrancaram-me o brilho, mas me sobraram as estrelas no céu! Ai estou tão poética, apesar de ser bandida.

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