Eu comecei a blogar lá no
Fofocas de Marte e o nome fofoca embora incomode muita gente que afirma que não
faz fofoca de jeito nenhum e não gosta disso, foi escolhido porque eu sou a
maior fofoqueira. Eu não sou uma fofoqueira qualquer não, eu fofoco até sobre a
minha própria vida, conto tudo, minhas palavras saem da boca como se fossem
tiros de metralhadora e eu vou falando e contando. É um defeito meu. Eu conto
tudo que acontece comigo, com meus filhos, meu marido, minha família. Eu sou
tão fofoqueira que até meu estado de espírito é fofocável. Se eu estou bem eu
estou bem e as pessoas que convivem comigo sabem disso só de olhar pra mim e se
eu estou mal eu estou tão mal que se falar eu choro então fofoco até em
lágrimas. A fofoca não me define, mas eu defino a fofoca. Contou pra mim porque
quis, pediu segredo? Um segredo só é um segredo quando só uma pessoa sabe o
segredo. Nem por isso eu sou cruel, de modo algum, se a fofoca for prejudicar a
pessoa de alguma forma eu me calo igual a quando estou comendo brigadeiro. Até
pra fofocar temos que ter ética, elegância e limite e o fato de eu falar demais
às vezes me deixa em situações com soluções que se existem, são segredo de
alguém e este alguém não sou eu.
E porque eu sou assim, vou
falando e contando, meus colegas de trabalho, assim como minha família, todos
eles sabem muito bem como eu sou. Todos sabem que eu estou sofrendo por causa
da mudança da Maria e que todos os dias eu volto do serviço dirigindo e
chorando porque eu sei que ela não vai estar ali me esperando pra brincar e
tudo mais que a gente fazia todos os dias.
E por mais que eu saiba que Maria era um animal de estimação, e não um
ser humano, isso não diminuiu a dor que eu sinto, mesmo entendendo que há para
a dor deste tipo de perda um limite e que não posso ultrapassá-lo.
E foi assim que quiseram me
dar a Charlote. Empurrar a Charlote, jogar a Charlote pra cima de mim.
Charlote é uma cadela que
foi adotada pela família de um colega que tem dois filhos ainda crianças.
Charlote é o tipo cadela da peste, come sapato chique, bota caríssima, puxa
roupas de grife do varal, come enfeites de mesa, estofados, antenas de conexão
Wi Fi. Charlote come o que aparecer e o que estiver escondido. Até agora nada
do que a família tentou fazer resolveu o problema. Ela comeu o estofado da
cadeira e um dia depois da cadeira voltar do conserto e apesar de ter sido
devidamente advertida, Charlote comeu o estofado de novo. Todo dia Charlote
apronta uma e apesar de ser querida, não há família que sobreviva a um cachorro
que não tem o que precisa, e eu acho que ela precisa de alguma coisa que eles
não podem dar, não neste momento, não no apartamento em que moram, não do jeito
que Charlote está instalada, mesmo que seja o melhor lugar possível. E é por
isso que estão querendo arrumar um lar melhor pra Charlote, um quintal, quem
sabe? Todo mundo sabe que eu tenho um quintal e todo mundo sabe como eu gostava
da minha Maria e como sofri com sua morte e tem gente querendo me dar Charlote!
Estou correndo da Charlote.
Mas nemmmmmm. Eu não estou
pronta pra colocar outra no lugar, eu não estou pronta pra esquecer os quatorze
anos de convivência, eu não estou pronta para voltar a catar bosta no quintal,
lavar xixi do cimento, lembrar marido de comprar ração, dar banho, levar no
veterinário, cuidar e por fim, aprender a amar.
Ahhhhh não mesmo, estou
correndo da Charlote, olha eu lá longe!!!!

























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